Dogma

Localiza-se no latim dogma, dogmătis, a respeito do grego dógma (δόγμα), genitivo dógmatos (δόγματος), interpretando-se como ‘opinião’, ‘decreto’ ou ‘aquilo que parece verdadeiro’, procedente do verbo dokéin (δοκεῖν), por ‘parecer’, ‘crer’ ou ‘pensar’, com raiz no indo-europeu *dek-, remetendo a ‘tomar’, ‘aceitar’ ou ‘perceber’, a mesma base que alimenta o latim docēre, por ensinar, expondo assim um parentesco profundo com a família de disciplina, doctor e doctrina; complementando-se pelo sufixo -ma (-μα), em função do resultado de uma ação, configurando aquilo que se aceitou como verdadeiro.

A distinção é reveladora: onde docēre se orienta rumo à transmissão ativa do saber, dokéin se instala no terreno da percepção subjetiva, daquilo que se assume como certo sem que necessariamente medie uma demonstração. O dógma, em sua concepção grega original, não carregava a carga pejorativa que eventualmente adquiriria, mas designava uma resolução ou princípio adotado por uma escola filosófica ou uma assembleia política, tal como se observa nos escritos de Platão e nas deliberações do Senado romano, onde dogma funcionava como equivalente de decrētum.

A nível documental, o termo se consolida no vocabulário filosófico grego a partir do século IV a.C., particularmente no marco das escolas estoica e epicurista, cujos seguidores organizavam seu pensamento em torno de dógmata —plural que designava o conjunto de princípios reitores da corrente—. Rumo aos primeiros séculos do cristianismo, a palavra experimenta uma transformação decisiva ao ser absorvida pela teologia patrística, onde passa a identificar as verdades reveladas e inquestionáveis da fé, proclamadas pelos concílios ecumênicos e revestidas de uma autoridade que não admitia debate. O Concílio de Niceia, no ano 325, constitui um marco nessa cristalização, estabelecendo dógmata que definiriam a ortodoxia cristã durante séculos.

Em sua evolução semântica, o sentido se desloca progressivamente da opinião fundamentada rumo à imposição doutrinária, configurando-se nos tempos modernos como um princípio que se sustenta pela força da autoridade e não pela do argumento, fechando as portas ao questionamento e à revisão crítica.

Sobre a raiz indo-europeia *dek- e do grego dokéin, destacam-se dogmático (observado no latim dogmatĭcus, sobre o grego dogmatikós, distinguindo aquele que adere de maneira inflexível a seus princípios, conjugado pelo sufixo -ikós, como agente de relação), paradoxo (dado no grego parádoxon, formulado pelo prefixo pará-, por ‘contrário a’ ou ‘à margem de’, e dóxa, por ‘opinião’, procedente igualmente de dokéin, compreendendo aquilo que contradiz a opinião estabelecida), ortodoxo (pautado no grego orthódoxos, combinando orthós, por ‘reto’ ou ‘correto’, e dóxa, assinalando a opinião reta), heterodoxo (visível no grego heteródoxos, sobre héteros, por ‘outro’ ou ‘diferente’, e dóxa, configurando a opinião divergente) e doxologia (no grego doxología, conjugando dóxa, aqui no sentido de ‘glória’, e -logía, por ‘expressão’, designando a fórmula de louvor litúrgico).

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