Lua

Aprecia-se no latim lūna, forma contracta de uma arcaica *loucsnā ou *lūcsnā, interpretando-se como ‘a luminosa’ ou ‘a que brilha’, procedente da raiz lūc-, vinculada ao substantivo lūx, lūcis, por ‘luz’, com referência no indo-europeu *lewk-, por ‘brilhar’, ‘resplandecer’ ou ‘ser luminoso’, expondo assim uma denominação que não identifica o astro por sua forma nem por sua posição no firmamento, mas por aquilo que torna visível: seu resplendor na escuridão, a capacidade de devolver à terra uma luz que não lhe pertence. O sufixo -na opera em função da adjetivação substantivada, configurando a entidade que porta a qualidade expressa pela raiz, um mecanismo paralelo ao que se observa no latim fortūna, por ‘a que traz a sorte’.

A distinção entre lūna e a forma grega selḗnē (σελήνη) é reveladora para compreender como duas civilizações fundacionais do pensamento ocidental optaram por caminhos etimológicos diferentes para nomear o mesmo astro: enquanto o latim privilegiou a qualidade lumínica, o grego se orientou pelo resplendor em si mesmo, procedendo selḗnē de sélas (σέλας), por ‘fulgor’ ou ‘brilho’, com possível raiz no indo-europeu *swel-, por ‘arder lentamente’. Ambas as tradições, não obstante, convergem numa mesma intuição: a lua se define por sua luz, não por sua matéria, e é essa luminosidade emprestada a que a converte em objeto de veneração, temor e fascínio.

A nível mitológico, a lua se personifica na deusa romana Lūna, identificada com a grega Selḗnē, irmã de Hēlios, o sol, e filha dos titãs Hyperíōn e Theía, que percorria o céu noturno num carro de prata puxado por dois cavalos brancos. A tradição mais célebre associada a Selene é seu amor pelo pastor Endymión, a quem Zeus concedeu um sono eterno para preservar sua juventude, e a quem a deusa visitava noite após noite, derramando sua luz sobre o corpo adormecido numa imagem que condensa a própria natureza do astro: uma presença que ilumina sem despertar, que acompanha sem tocar, que deseja sem consumar. Por sua parte, a tradição latina vincula Luna a Diana, deusa da caça e das florestas, configurando uma tríplice identidade —Luna no céu, Diana na terra, Hécate no submundo— que reflete as fases do astro e seu domínio sobre os três planos da existência.

A nível documental, a influência do ciclo lunar sobre a organização do tempo humano se manifesta desde as civilizações mais antigas, destacando que o próprio conceito de mês procede do indo-europeu *mēns-, por ‘lua’ e ‘mês’, do qual derivam o latim mēnsis, o grego mḗn (μήν) e o inglês month, evidenciando que a medição do tempo se concebeu originalmente como uma contagem de luas. O calendário romano pré-republicano era estritamente lunar, e mesmo após a reforma juliana do ano 46 a.C., a marca do astro pervive na denominação do lūnae diēs, por ‘dia da lua’, que se perpetua no espanhol lunes, no italiano lunedì e no francês lundi, enquanto o português optou por segunda-feira, tendo substituído a referência pagã pela enumeração eclesiástica promovida por São Martinho de Dumes no século VI, uma particularidade que distingue o português das demais línguas românicas na nomenclatura dos dias da semana.

Entre os termos vinculantes a partir da raiz indo-europeia *lewk- e do latim lūx, destacam-se luz (observada diretamente no latim lūx, lūcis), lúcido (dado no latim lūcĭdus, assinalando aquilo dotado de clareza, tanto física quanto mental, com o sufixo -ĭdus, em propriedade de estado ou qualidade), luceiro (formado sobre a base de lūx com o sufixo -eiro, designando o astro que emite luz, particularmente Vênus em sua aparição matutina), elucidar (pautado no latim elūcidāre, formulado pelo prefixo e-, variante de ex-, por ‘fora’, e lūcidāre, compreendendo o ato de trazer algo à luz, de tornar claro o que estava obscuro), lunático (visível no latim tardio lunātĭcus, conjugando lūna e o sufixo -ātĭcus, em função de relação, designando aquele que padece perturbações atribuídas à influência do astro sobre a mente, uma crença arraigada tanto na medicina antiga quanto na tradição popular) e translúcido (declarado no latim translūcĭdus, formulado pelo prefixo trans-, por ‘através de’, e lūcĭdus, compreendendo aquilo que deixa passar a luz sem permitir ver com nitidez o que há por trás). Pelo lado da forma grega, identificam-se selênio (nomeado pelo químico sueco Jöns Jacob Berzelius em 1817, a partir de selḗnē, por sua semelhança com o telúrio, cujo nome procede de Tellūs, a Terra, estabelecendo assim um paralelismo entre o astro terrestre e o lunar) e selenografia (conjugando selḗnē e -graphía, por ‘descrição’ ou ‘escrita’, designando o estudo e a cartografia da superfície lunar).

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