Documentado no latim medieval alchimia, procedente do árabe al-kīmiyāʾ (الكيمياء), onde al- funciona como artigo definido, por ‘o’ ou ‘a’, e kīmiyāʾ designava a arte da transmutação dos metais, cuja origem etimológica se bifurca em dois caminhos que os filólogos não conseguiram conciliar de maneira definitiva. Por um lado, conecta-se com o grego chymeía (χυμεία), procedente do verbo chéein (χέειν), por ‘verter’, ‘fundir’ ou ‘derramar’, com raiz no indo-europeu *ǵhew-, por ‘verter’ ou ‘derramar’, expondo a prática primordial de fundir metais e misturar substâncias líquidas como essência do ofício; por outro lado, cruza-se com o egípcio kēme ou km.t, designando a ‘terra negra’, o limo fértil que o Nilo depositava após as cheias, e por extensão o nome com que os próprios egípcios identificavam seu país, configurando assim a possibilidade de que a química significasse literalmente ‘a arte da terra negra’, isto é, o saber hermético nascido no Egito. Complementa a composição o sufixo -ica, procedente do grego -ikḗ (-ική), em função da adjetivação que designa um campo do conhecimento ou uma disciplina.
A convivência de ambas as etimologias não é casual, mas reflete a dupla natureza de uma prática que se desenvolveu simultaneamente como técnica metalúrgica e como saber esotérico. No Egito ptolemaico, entre os séculos III a.C. e III d.C., as oficinas de Alexandria combinavam procedimentos práticos de fundição, destilação e liga com uma cosmovisão hermética que atribuía aos metais qualidades espirituais e aspirava a seu aperfeiçoamento progressivo até alcançar o ouro, compreendido não como simples riqueza material, mas como manifestação da pureza absoluta. Os textos atribuídos a Hermes Trismegisto, figura sincrética que fundia o deus grego Hermes com o egípcio Thoth, constituem o corpus fundacional dessa tradição, consagrando a célebre máxima quod est inferius est sicut quod est superius, por ‘o que está embaixo é como o que está em cima’, princípio reitor de uma cosmovisão que concebia a transformação da matéria como espelho da transformação da alma.
Após a conquista muçulmana do Egito no século VII, os eruditos árabes absorvem, traduzem e amplificam esse legado, prefixando-o com o artigo al- e desenvolvendo contribuições decisivas que transcendem a especulação mística. Jābir ibn Ḥayyān (c. 721-815), conhecido no Ocidente como Geber, aperfeiçoa os processos de destilação, cristalização e calcinação, enquanto al-Rāzī (854-925) sistematiza a classificação das substâncias em minerais, vegetais e animais, estabelecendo precedentes que a ciência posterior não faria senão refinar. Com a tradução ao latim desses tratados árabes na Espanha medieval, particularmente na Escola de Tradutores de Toledo por volta do século XII, o termo alchimia ingressa no vocabulário europeu, conservando o artigo árabe que denuncia seu trânsito pelo mundo islâmico.
A transformação decisiva se produz a partir do século XVII, quando a separação entre alquimia e química se consolida com as contribuições de Robert Boyle, cujo The Sceptical Chymist, publicado em 1661, questiona a teoria aristotélica dos quatro elementos e propõe uma concepção da matéria baseada em partículas e na verificação experimental, despojando a arte de suas vestes místicas para revesti-la com o rigor do método científico. A supressão do prefixo al- não é meramente linguística, mas programática: ao despojar a palavra de seu artigo árabe, a Europa sinaliza a ruptura com a tradição hermética e proclama o nascimento de uma disciplina nova, governada pela observação e pela quantificação.
Entre os termos vinculantes a partir da raiz indo-europeia *ǵhew- e do grego chéein, destacam-se fundir (observado no latim fundĕre, compartilhando a noção de verter ou derramar, com raiz igualmente em *ǵhew-), fusão (dada no latim fusio, fusiōnis, como derivação de fundĕre, com o sufixo -io, em função da ação), confundir (pautado no latim confundĕre, formulado pelo prefixo com-, por ‘junto’, e fundĕre, compreendendo o ato de verter coisas juntas até misturá-las indistintamente), difundir (visível no latim diffundĕre, conjugando o prefixo dis-, por ‘em distintas direções’, e fundĕre, designando o derramamento expansivo), infundir (declarado no latim infundĕre, combinando o prefixo in-, por ‘dentro’, e fundĕre, compreendendo o ato de verter para o interior) e profuso (no latim profūsus, como particípio de profundĕre, formulado pelo prefixo pro-, por ‘para a frente’, e fundĕre, assinalando aquilo derramado com abundância). Pelo lado do legado árabe, identificam-se alquimia (conservando a forma íntegra com o artigo al-), alambique (procedente do árabe al-anbīq, por sua vez do grego ámbix, por ‘vaso’ ou ‘taça’, designando o instrumento essencial da destilação), álcool (dado no árabe al-kuḥl, pelo pó finíssimo de antimônio, estendido depois à essência destilada) e álcali (pautado no árabe al-qaly, por ‘cinza calcinada’, designando as substâncias básicas obtidas da incineração de plantas).