Imagem

Aprecia-se no latim imāgo, imagĭnis, interpretando-se como ‘representação’, ‘retrato’, ‘figura’ ou ‘aparência’, procedente do verbo imitāri, por ‘imitar’ ou ‘reproduzir’, com raiz no indo-europeu *aim-, por ‘copiar’ ou ‘assemelhar’, expondo a ideia primordial de uma duplicação que captura a forma daquilo que reproduz sem ser, em essência, a coisa em si; complementando-se pelo sufixo -āgo, -agĭnis, em função da substantivação que configura o resultado ou produto visível de uma ação, um formante pouco frequente em latim que compartilha com vorāgo, por ‘abismo’, e propāgo, por ‘propagação’, a particularidade de designar entidades dotadas de certa profundidade ou expansão inerente.

A distinção entre imāgo e simulācrum é fundamental para compreender o espectro semântico do vocabulário latino da representação: enquanto o simulācrum, procedente de simulāre, por ‘fingir’ ou ‘aparentar’, carregava uma conotação de engano ou substituição artificiosa, a imāgo se posicionava num terreno mais neutro e solene, designando tanto o retrato escultórico de um ancestral quanto a impressão mental que um objeto deixa na alma do observador. Na tradição aristocrática romana, as imagĭnes maiōrum constituíam as máscaras de cera moldadas sobre os rostos dos defuntos ilustres da família, que se conservavam no átrio da domus e se exibiam durante as procissões funerárias, configurando-se como um privilégio exclusivo da nobreza patrícia que vinculava a identidade da linhagem com a preservação visível de seus mortos.

A nível filosófico, a imāgo ocupa um lugar central na teoria do conhecimento desenvolvida por Lucrécio em seu De Rerum Natura, onde retoma a doutrina epicurista dos simulacra ou imagĭnes, compreendendo lâminas sutilíssimas que se desprendem continuamente da superfície dos objetos e viajam pelo ar até impactar os sentidos, explicando assim a percepção visual como um fenômeno estritamente material. Essa concepção contrasta radicalmente com a tradição platônica, onde a imagem se compreende como sombra degradada da realidade verdadeira, tal como se expõe na alegoria da caverna do livro VII de A República, configurando uma tensão entre imagem como veículo de conhecimento e imagem como fonte de engano que atravessa toda a história do pensamento ocidental.

A transformação mais profunda do termo se produz com a teologia cristã, particularmente a partir do Gênesis, capítulo 1, versículo 27, onde se proclama que Deus criou o homem ad imagĭnem suam, ‘à sua imagem’, elevando a imāgo a categoria teológica fundamental: o ser humano como reflexo do criador, portador de uma semelhança divina que o distingue do restante da criação. Essa doutrina do Imago Dei desencadearia séculos mais tarde a denominada crise iconoclasta em Bizâncio, entre os séculos VIII e IX, onde a legitimidade de representar o sagrado mediante imagens enfrentou teólogos, imperadores e monges num conflito que redefiniu a relação entre o visível e o transcendente.

O termo se estende ao espanhol imagen, ao italiano immagine, ao francês image, ao português imagem e ao inglês image, procedente este último do francês antigo, mantendo-se fiel à forma latina em todas as línguas receptoras.

Entre os termos vinculantes a partir da raiz indo-europeia *aim- e do latim imitāri, destacam-se imitar (observado diretamente no latim imitāri, compreendendo a ação de reproduzir ou copiar um modelo), imitação (dada no latim imitatio, imitatiōnis, com o sufixo -tio, em função da ação ou seu resultado), imaginar (pautado no latim imaginārī, designando a faculdade de produzir imagens mentais, configurando a passagem da representação externa à interna), imaginário (visível no latim imaginarius, assinalando aquilo que existe unicamente na esfera das imagens mentais, com o sufixo -ārius, em propriedade de relação ou pertencimento) e inimitável (declarado no latim inimitabĭlis, formulado pelo prefixo in-, como agente de negação, imitāri, e o sufixo -bĭlis, em função de capacidade, compreendendo aquilo que não pode ser reproduzido). Pelo lado do sufixo -āgo, identificam-se voragem (no latim vorāgo, voragĭnis, procedente de vorāre, por ‘devorar’, designando o abismo que tudo engole) e propagação (sobre o latim propagatio, derivando de propāgo, propagĭnis, formulado pelo prefixo pro-, por ‘para a frente’, e a raiz *pag-, por ‘fixar’, compreendendo a expansão que avança fixando-se em novos territórios).

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