Presagio

Tem referência no latim como praesagĭum, remetendo ao ‘pressentimento’ ou ‘anúncio do que está por acontecer’, sobre o verbo praesagīre, interpretando-se por ‘pressentir’ ou ‘perceber antes’, configurando-se a partir do prefixo prae-, que transmite a ideia de ‘antes’ ou ‘diante de’, com raiz no indo-europeu *per-, por ‘adiante’ ou ‘primeiro’, e o verbo sagīre, remetendo a ‘perceber com agudeza’ ou ‘farejar’, sobre a base do indo-europeu *sag-, por ‘rastrear’ ou ‘buscar o rastro’; acompanha o sufixo -ĭum, adaptado em -io, em função da substantivação a respeito da ação.

O latim sagax, sagācis, do qual procede sagaz, descrevia o animal capaz de seguir o rastro da presa pelo cheiro, particularmente o cão de caça, e apenas por extensão o indivíduo de percepção aguda. Desse modo, o presságio distingue-se da profecia ou da predição racional na medida em que não calcula nem proclama, mas fareja no ar dos acontecimentos os sinais do que vem, vinculando-se ao instintivo e ao inexplicável, como um olfato da alma.

Na Roma antiga, instalava-se no coração da vida pública e religiosa, articulando-se com a prática do augúrio (observado no latim augurium). No entanto, enquanto o áugure interpretava sinais mediante um ritual formalizado, observando o voo das aves dentro de um espaço consagrado, o praesagĭum compreendia a percepção espontânea, o estremecimento sem método, o pressentimento que assaltava o cidadão comum. Cícero (106-43 a.C.), em seu tratado De divinatione, por volta de 44 a.C., examina criticamente essas práticas, recolhendo a crença de que a alma possui uma capacidade natural de pressentir, em particular diante da proximidade da morte. A literatura latina explora essa dimensão trágica, apreciando-se em Suetônio (69-122) os múltiplos sinais que teriam precedido o assassinato de Júlio César, incluindo o sonho de sua esposa Calpúrnia na noite anterior aos idos de março de 44 a.C., antecipando o corpo apunhalado do ditador entre seus braços.

Documentada no português por volta do século XV, a palavra se aprecia no espanhol presagio, no italiano presagio, no francês présage e no inglês presage, conservando em todas as línguas uma marcada inclinação para o sombrio: raramente se pressagia algo venturoso, sendo o céu que escurece, o silêncio repentino dos pássaros ou o calafrio sem causa os cenários naturais do termo, enquanto para as boas notícias o idioma costuma preferir a promessa ou o auspício. No imaginário popular brasileiro, essa carga se manifesta em crenças cotidianas, como o canto da coruja rasga-mortalha anunciando desgraça, o cachorro que uiva na madrugada ou a borboleta preta que entra pela janela, herdeiras diretas dessa leitura instintiva dos sinais que os romanos chamavam praesagĭum.

A partir da raiz *sag-, identificam-se sagaz (dado nas formas latinas sagax, sagācis), sagacidade (pautado no latim sagacĭtas, sagacĭtātis) e pressagiar (sobre o latim praesagiāre), conservando todas a marca do rastreamento e da percepção fina; pelo caminho de *per-, desdobra-se a extensa família do prefixo pre-, destacando predizer (visível no latim praedicĕre, conjugando dicĕre, por ‘dizer’), prever (declarado no latim praevidēre, sobre vidēre, por ‘ver’) e prevenir (no latim praevenīre, a respeito de venīre, por ‘vir’). Completam o panorama da adivinhação os casos de auspício (no latim auspicium, conjugando avis, por ‘ave’, e specĕre, por ‘observar’), vaticínio (dado no latim vaticinium, associado a vates, assinalando o ‘adivinho’ ou ‘poeta inspirado’) e agouro (procedente do mesmo augurium, transformado pela evolução popular do romance ibérico, e vivíssimo no português do Brasil pela figura do agourento, aquele que só anuncia desgraça), sabendo diferenciar o matiz de cada figura: o áugure observa, o vate proclama, e quem pressagia, simplesmente, pressente.

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