Sobre o latim tardio como būlīmia, a respeito da forma grega boulīmía (βουλιμία), configurando-se como uma composição a partir de boûs (βοῦς), remetendo ao ‘boi’, com raiz no indo-europeu *gwou-, por ‘vaca’ ou ‘boi’, e līmós (λιμός), interpretando-se por ‘fome’, sobre a base do indo-europeu *lei-, por ‘desvanecer-se’ ou ‘emagrecer’, complementando-se pelo sufixo -ia, em função da substantivação em propriedade de gênero feminino. Desse modo, a composição transmite literalmente uma ‘fome de boi’, isto é, um apetite descomunal, insaciável, de uma voracidade que transborda os limites da natureza humana.
Identifica-se nos registros médicos da antiga Grécia, apreciando-se nos escritos de Hipócrates e posteriormente na obra de Galeno, onde se descrevia como uma condição de fome desmedida, acompanhada de debilitamento progressivo. No latim medieval, būlīmia conserva o sentido clínico, transitando ao francês como boulimie por volta do século XIV, estendendo-se ao inglês bulimia e ao espanhol bulimia. No entanto, a ressignificação que define sua compreensão moderna se deve ao psiquiatra britânico Gerald Russell, que em 1979 publicou a descrição clínica da bulimia nervosa, distinguindo-a como um transtorno alimentar caracterizado por episódios recorrentes de ingestão compulsiva seguidos de condutas compensatórias.
Cabe remarcar que a presença do componente boûs não se limita à literalidade do animal, mas opera como um recurso hiperbólico, amplificando a magnitude da fome até equipará-la à voracidade atribuída ao gado bovino, um símbolo de consumo incessante na percepção do mundo antigo. Por sua parte, līmós não somente designa a fome fisiológica, mas carrega uma dimensão de padecimento, evocando a fome coletiva e a carência extrema, um matiz que resulta essencial para compreender a profundidade do termo.
No Brasil, a palavra transita do vocabulário estritamente médico ao debate público a partir dos anos 1980, na esteira da classificação de Russell e de sua incorporação aos manuais diagnósticos adotados pela psiquiatria nacional, consolidando-se institucionalmente com a criação de serviços pioneiros como o AMBULIM, o programa de transtornos alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP, fundado em 1992, referência latino-americana no tema. A discussão ganharia dimensão social nos anos 2000, quando o país, potência mundial da moda e exportador de modelos, viu o tema estampar as manchetes, impulsionando campanhas de conscientização e a regulamentação de padrões corporais em desfiles e editoriais, e expondo que a velha fome de boi dos gregos se convertera, na sociedade da imagem, em um símbolo do conflito entre o corpo real e o corpo exigido.
É possível destacar como palavras associadas às raízes etimológicas, pelo lado de *gwou-, boi (observado no latim bōs, bŏvis), bucólico (visível no grego boukolikós, onde boukólos assinala o ‘pastor de bois’), búfalo (dado no latim būfălus) e hecatombe (pautado no grego hekatómbē, conjugando hekatón, por ‘cem’, e boûs, descrevendo o sacrifício ritual de cem bois); pelo lado de līmós, identifica-se limose (no latim científico limosis), designando um apetite patológico.
Do mesmo modo, é imprescindível diferenciar bulimia de sua contraparte clínica, a anorexia (sobre o grego anorexía, composto pelo prefixo an-, em propriedade de negação, e órexis, por ‘apetite’ ou ‘desejo’), que propõe a restrição alimentar, evidenciando que ambos os transtornos, embora opostos em sua manifestação aparente, compartilham uma raiz comum na relação distorcida com o alimento e a percepção do próprio corpo.
A bulimia se entende como um transtorno que transcende a dimensão estritamente alimentar, enraizando-se em fatores emocionais, psicológicos e socioculturais, onde a pressão estética, a ansiedade e a necessidade de controle convergem em um ciclo destrutivo. O que os gregos percebiam como uma fome bestial, a ciência contemporânea o reconhece como uma expressão do sofrimento interior.