Está dada no latim como emotĭo, emotĭōnis, embora seu ingresso efetivo ao português se produza por via do francês émotion, documentado por volta de meados do século XVI, procedendo do verbo émouvoir, por ‘comover’, que por sua vez responde ao latim emovēre, interpretando-se como ‘tirar de um lugar’ ou ‘deslocar’, formado pelo prefixo ex-, que se contrai em e-, remetendo à ideia de ‘fora’ ou ‘de dentro para fora’, com raiz no indo-europeu *eghs-, mantendo o sentido de procedência exterior, e o verbo movēre, por ‘mover’, sobre a base do indo-europeu *mew-, indicando a ação de empurrar ou deslocar; acompanha o sufixo -tĭo, -tĭōnis, que se adapta ao português como -ção, em função da substantivação abstrata. Desse modo, a composição transmite literalmente o movimento que sai de dentro, expondo que a emoção, fiel a seu étimo, é aquilo que nos tira do lugar.
O latim emovēre não pertencia originalmente ao vocabulário dos afetos, mas ao registro físico e militar, assinalando a ação concreta de retirar ou desalojar, tal como se removia uma guarnição de sua posição ou se deslocava um objeto de seu sítio. Essa dimensão mecânica do termo haveria de transformar-se paulatinamente ao ingressar no terreno psicológico, onde o que se move já não é um corpo, mas um estado do ânimo.
No francês do século XVI, émotion aparece inicialmente vinculado à agitação popular, descrevendo tumultos e comoções sociais antes de circunscrever-se ao âmbito individual do sentimento. O filósofo René Descartes (1596-1650) aborda as emoções em seu tratado Les passions de l’âme, de 1649, embora empregue preferentemente o termo passion, reservando émotion para a perturbação corporal que acompanha o afeto. Não será até o século XVIII que a voz se estabilize em sua acepção moderna, designando o estado afetivo intenso que altera a percepção e a conduta do indivíduo.
O inglês adota a forma emotion por volta de 1570, registrando-se inicialmente com o sentido de agitação ou distúrbio, enquanto o italiano conserva emozione e o espanhol emoción, mantendo a fidelidade ao modelo francês que serve de ponte entre o latim e as línguas modernas.
No Brasil, a cultura nacional consagrou a emoção como valor declarado, contrapondo-se ao estereótipo da frieza racional europeia, uma autoimagem que o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) examinou em Raízes do Brasil (1936) através da figura do homem cordial, aquele que age pelo coração (do latim cor, cordis) antes que pelo cálculo, advertindo que a cordialidade não significa bondade, mas o predomínio do afeto sobre a norma. O idioma cotidiano registra essa centralidade em expressões consagradas como que emoção!, e o futebol, o carnaval e a telenovela vertebraram durante décadas uma pedagogia coletiva do emocionar-se em público, apreciando-se o caso emblemático do locutor esportivo brasileiro, cujo grito de gol prolongado, inaugurado por Rebello Júnior nos anos 1940 e eternizado por vozes como a de Osmar Santos e Galvão Bueno, converteu a transmissão radiofônica em puro emovēre: a voz que se desloca, que sai de dentro e desaloja o ouvinte de seu lugar.
A raiz *mew- desdobra uma família numerosa: mover e movimento (sobre o latim movimentum), motor (dado nas formas latinas motor, motōris, assinalando o que produz o movimento), motivo e motivação (pautados no latim medieval motīvus, compreendendo aquilo que move a agir), momento (visível no latim momentum, contração de movimentum, expondo que o tempo se mede pelo que se move), móvel e automóvel (conjugando o grego autós, por ‘si mesmo’, para a máquina que se move sozinha), comover (declarado no latim commovēre, onde o prefixo com- opera em propriedade intensiva e de conjunto, movendo tudo ao mesmo tempo), remover (sobre o latim removēre, conservando o sentido físico primitivo do étimo) e motim (observado no francês antigo mutin, curiosamente devolvendo a palavra à agitação popular que o émotion francês do século XVI descrevia), sabendo apreciar que toda a família confirma a intuição original do latim: não há emoção sem deslocamento.