Escória

Registra-se no latim como scōria, designando o resíduo que se desprende dos metais durante a fundição, a respeito do grego skōría (σκωρία), mantendo o mesmo sentido metalúrgico, procedendo do substantivo skōr (σκῶρ), cujo genitivo se expressa em skatós (σκατός), interpretando-se por ‘excremento’ ou ‘dejeto’, com raiz no indo-europeu *sker-, em sua variante *skōr-, ao qual se atribui a ideia de excremento ou matéria expelida pelo corpo; acompanha o sufixo -ia (-ία), em função da substantivação em propriedade de gênero feminino.

Na metalurgia antiga, a escória cumpria paradoxalmente uma função reveladora: era ao observar a camada vítrea que flutuava sobre o metal derretido que o fundidor comprovava a purificação do bronze ou do ferro, de modo que o dejeto certificava a nobreza do que restava no cadinho. Essa imagem não escapou à tradição bíblica, onde os profetas a esgrimem como metáfora moral, apreciando-se em Isaías a sentença de que a prata do povo se converteu em escória, e em Ezequiel a comparação da casa de Israel com o resíduo da fornalha, consolidando o deslizamento semântico que as línguas românicas herdariam: do refugo mineral ao humano.

O espanhol registra escoria desde o medievo, o italiano conserva scoria, o francês adota scorie e o inglês scoria, este último restrito ao tecnicismo geológico que denomina a rocha vulcânica porosa, enquanto o português consagra escória, acumulando as três acepções que convivem até hoje: o resíduo da fundição, a lava fragmentada dos vulcões e, na mais corrente delas, o conjunto do que se considera desprezível, cristalizado na fórmula escória da sociedade, um dos insultos coletivos mais duros do idioma, precisamente porque nega ao outro até a condição de matéria aproveitável.

Desde meados do século XX, o resíduo das siderúrgicas de Volta Redonda e do Vale do Aço mineiro passou a ser moído e incorporado ao cimento Portland, ao ponto de o cimento de escória sustentar boa parte do concreto que ergueu Brasília e as grandes barragens, expondo a ironia de um país edificado, em sentido literal, sobre aquilo que a fornalha rejeitou. Pela via social, o termo vertebrou a retórica da exclusão desde as crônicas policiais do início do século XX, que carimbavam como escória as populações da Cabeça de Porco e dos cortiços cariocas, um uso que a crítica social inverteria depois, denunciando que chamar alguém de escória é o gesto que fabrica o descarte que pretende descrever.

Exemplos de orações

O engenheiro explicou que a escória do alto-forno seria reaproveitada na fabricação de cimento.

A erupção cobriu a encosta com uma camada de escória escura e porosa.

O deputado foi criticado por chamar os manifestantes de escória da sociedade.

Comparação etimológica

Sobre a mesma raiz skōr, skatós, identifica-se escatologia (dada no grego skatós e -logía, por ‘estudo’, designando na medicina e na antropologia o estudo dos excrementos, e sabendo diferenciar sua homônima teológica, que procede de éschatos, por ‘último’, sem parentesco algum), conservando intacto o vínculo de significação com o dejeto que fundamenta a escória.

Pela via da forma latina, aprecia-se escorial (configurado sobre scōria e o sufixo -al, em função de lugar de abundância, nomeando o terreno onde se acumulam os resíduos da fundição, e batizando o célebre Monastério de El Escorial, erguido por Filipe II junto a antigas escombreiras de ferrarias, expondo o raro destino de uma palavra de refugo que terminou nomeando um palácio), e escorificar (conjugando scōria e o sufixo -ficar, sobre o latim facĕre, por ‘fazer’, descrevendo na metalurgia a ação de reduzir a escória as impurezas do metal), ambas fiéis ao campo semântico do resíduo que define a família inteira.

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