Rastreia-se no francês como Malbec, identificando uma cepa de uva tinta originária do sudoeste da França, cuja denominação se encontra envolta em uma disputa etimológica que oferece ao menos dois caminhos. Por um lado, e como a proposta mais difundida, conecta-se com a figura de um viticultor ou camponês húngaro de sobrenome Malbeck, a quem se atribui haver propagado a variedade na região de Bordeaux durante o século XVIII, adaptando-se foneticamente ao francês com a supressão do -k final; por outro lado, cruza-se uma hipótese que decompõe o termo nos elementos do occitano mal, por ‘mau’, procedendo do latim malus, com raiz no indo-europeu *mel-, ao qual se atribuem os sentidos de falso, mau ou enganoso, e bec, remetendo a ‘bico’ ou ‘boca’, sobre o gaulês *bekkos, configurando a expressão mal bec, que se interpretaria como ‘boca má’ ou ‘bico áspero’, aludindo à adstringência e ao caráter tânico pronunciado que distingue esta uva frente a outras variedades bordalesas, resultando agressiva ao paladar em sua expressão mais jovem.
A cepa se conhece na França sob múltiplos sinônimos que delatam sua dispersão geográfica e as particularidades regionais de seu cultivo, destacando-se Côt no Vale do Loire, Auxerrois em Cahors, e Pressac na zona de Saint-Émilion, onde o nome honra o Château de Pressac que a difundiu. Essa pluralidade de denominações reflete uma prática habitual na viticultura europeia, na qual uma mesma variedade recebe apelativos distintos segundo o território que a acolhe, dificultando por séculos a tarefa dos ampelógrafos encarregados de classificar as cepas com rigor científico.
Em Bordeaux, o Malbec ocupou historicamente um lugar relevante como componente dos cortes tradicionais, acompanhando o Cabernet Sauvignon e o Merlot. No entanto, a devastadora geada de 1956 dizimou os vinhedos franceses desta variedade, relegando-a a um papel secundário em sua terra natal, um golpe do qual nunca haveria de recuperar-se plenamente em solo europeu.
É na Argentina onde o Malbec encontra sua expressão mais célebre e sua segunda pátria. O agrônomo francês Michel Aimé Pouget introduz a cepa na província de Mendoza em 1853, por encomenda do presidente Domingo Faustino Sarmiento, que impulsionou a modernização agrícola do país. As condições de altitude, amplitude térmica e solos aluviais da região pré-cordilheirana haveriam de transformar o caráter da uva, outorgando-lhe uma concentração frutada, uma redondeza tânica e uma profundidade cromática que a distinguem radicalmente de sua expressão francesa, consolidando a Argentina como o principal produtor mundial e estabelecendo o 17 de abril como o Dia Mundial do Malbec, em comemoração à data em que Sarmiento impulsionou formalmente a transformação vitivinícola em 1853.
O Brasil protagoniza um capítulo curioso nessa história: embora a Serra Gaúcha tenha consagrado o Merlot como sua tinta emblemática, o Malbec encontrou terreno promissor na Campanha Gaúcha, na fronteira com o Uruguai, onde os solos arenosos e o clima mais seco de municípios como Santana do Livramento e Bagé aproximam as condições de cultivo das do outro lado do Prata. No entanto, a marca mais profunda da cepa no país se dá pela via do consumo: o Malbec argentino converteu-se, a partir dos anos 2000, no vinho estrangeiro por excelência da mesa brasileira, ao ponto de o Brasil figurar entre os principais destinos das exportações mendocinas, expondo que a boca má do occitano conquistou definitivamente o paladar do vizinho, e que a velha adstringência que lhe deu nome se dissolveu, sob o sol andino, na maciez que os brasileiros aprenderam a chamar simplesmente de um Malbec.
Pela via de malus, destaca-se malícia (dada no latim malitia), maligno (observado no latim malignus), e malévolo (pautado pelo latim malevolus); pelo caminho de *bekkos, identificam-se bico em sua acepção ornitológica e bicada, assim como o francês bécasse (sobre bec), denominando a ave de bico longo, que o português conserva em galinhola.