Saudade

Aponta-se a referência no latim sōlitas, sōlitātis, compreendendo-se por ‘solidão’ ou ‘estado de quem está só’, constituindo-se sobre o adjetivo sōlus, remetendo a ‘sozinho’, ‘único’ ou ‘desacompanhado’, de origem discutida, possivelmente vinculado ao indo-europeu *swe-, pronome reflexivo que transmite a ideia de ‘si mesmo’, complementando-se pelos componentes -tas, -tātis, em função da qualidade regida pelo adjetivo vinculante, que o português adapta ao sufixo -dade, visível em formações como bondade ou liberdade.

Do latim sōlitāte(m), o galego-português medieval registra as formas soidade, suidade e ainda soedade, documentadas nos cancioneiros dos séculos XIII e XIV, onde os trovadores já cantavam a dor da ausência nas cantigas de amigo, com a mulher lamentando o amado que partira pelo mar. A transformação da vogal inicial para a forma consolidada em sau- aprecia-se por influência do verbo saudar (observado no latim salutāre, sobre salus, salūtis, por ‘saúde’ ou ‘salvação’), considerando que quem sente a falta de alguém deseja precisamente saudá-lo, revê-lo, recuperá-lo, operando um cruzamento semântico e sonoro que moldaria definitivamente a palavra, casando a solidão de quem fica com a saudação de quem espera reencontrar.

Consagra-se socialmente a partir do século XV, no contexto das grandes navegações, quando Portugal lança seus homens ao Atlântico e ao Índico, deixando nos portos mulheres, mães e filhos, forjando uma cultura inteira em torno da ausência, da espera e do mar. Não por acaso, o fado, gênero musical lisboeta cuja denominação responde ao latim fatum, por ‘destino’, ergue-se como o monumento sonoro dessa emoção. No Brasil, a palavra desembarca com as caravelas e encontra terreno fértil, alimentada pela imigração, pelas distâncias continentais e pela sensibilidade popular, atravessando a música de Pixinguinha a Tom Jobim, cuja Chega de Saudade, de 1958, composta com Vinicius de Moraes, inaugura a bossa nova precisamente pedindo o fim da distância.

Instala-se no imaginário coletivo a ideia de que se trata de uma palavra intraduzível, sem equivalente exato em outros idiomas, figurando em listas internacionais de termos únicos. Descreve o sentimento de falta de alguém, de algum lugar ou de algum tempo, misturando dor e doçura, porque quem sente saudade reconhece o valor daquilo que perdeu ou deixou para trás, distinguindo-se da nostalgia (conjugada sobre os elementos gregos nóstos, por ‘regresso’, e álgos, por ‘dor’, cunhada pelo médico suíço Johannes Hofer em 1688 como categoria clínica para o mal dos soldados longe de casa), considerando que a nostalgia mira somente o passado, enquanto a saudade admite futuro: pode-se ter saudade do que ainda vai voltar.

Exemplos de orações

– A saudade da infância no interior aperta o peito nas tardes de domingo.
– Escreveu uma carta carregada de saudade para a irmã que mora longe.
– Matar a saudade é a expressão mais brasileira de todas: reencontrar para curar.

Comparação etimológica

A partir do latim sōlus destacam-se solidão (dada no latim solitūdo, solitūdinis), solitário (declarado no latim solitārius), soliloquio (composição sobre sōlus e o verbo loqui, por ‘falar’, descrevendo quem fala consigo mesmo) e solo (mantendo a grafia latina no campo musical, pela via do italiano, identificando a execução de um único intérprete).

Vale diferenciar o caso de sol, o astro (observado no latim sōl, sōlis, com raiz no indo-europeu *sawel-, mantendo o sentido), cuja semelhança gráfica é mera coincidência, sem qualquer parentesco com a solidão, e igualmente o de solidariedade (sobre o latim solĭdus, por ‘sólido’ ou ‘inteiro’, do qual também se desprendem soldado e sueldo no espanhol), confirmando que nem tudo o que soa próximo compartilha a mesma raiz.

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