Altruísmo

Neologismo deliberado, cunhado por volta de 1830 pelo filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), pai do positivismo e da sociologia, que o apresenta como altruisme, sobre a base do italiano altrui, remetendo a ‘outro’, ‘o alheio’, procedendo do latim vulgar *alterui, forma dativa de alter, interpretando-se por ‘o outro entre dois’, com raiz no indo-europeu *al-, por ‘mais além’; acompanha o sufixo -ismo, que toma as respectivas formas do latim -ismus e do grego -ismós (-ισμός), em função da substantivação como doutrina ou sistema de pensamento.

Comte não fabrica o termo como adorno do vocabulário, mas como pedra angular de seu sistema ético, sintetizado na máxima vivre pour autrui, por ‘viver para o outro’, concebendo-o explicitamente como antônimo de egoísmo (observado no latim ego, por ‘eu’, conjugado com o mesmo sufixo -ismo), e estabelecendo uma polaridade que estrutura o debate moral até a atualidade. Para o pensador francês, a civilização progredia na medida em que os instintos egoístas cedessem diante dos impulsos benevolentes, chegando a propor uma religião da humanidade onde o culto ao divino se substituísse pela devoção ao conjunto dos seres humanos. Cabe destacar que essa doutrina encontrou no Brasil seu terreno mais fértil: o positivismo comtiano marcou profundamente a geração republicana de 1889, deixando sua marca na própria bandeira nacional, cujo lema Ordem e Progresso abrevia a fórmula do filósofo, e materializando-se no Templo da Humanidade, erguido no Rio de Janeiro em 1881, um dos poucos espaços do mundo dedicados ao culto positivista, onde o altruísmo se pregava literalmente como virtude religiosa.

O inglês registra altruism por volta de 1853, difundido pelos escritos de George Henry Lewes e consolidado por Herbert Spencer (1820-1903), que o incorporou ao debate evolucionista, estendendo-se ao italiano altruismo, ao espanhol altruismo e ao alemão Altruismus. Precisamente a biologia evolutiva lhe reserva um de seus capítulos mais fascinantes: o aparente contrassenso de que um organismo sacrifique seu benefício em favor de outro, desafiando a lógica da seleção natural, encontraria respostas na teoria da seleção de parentesco formulada por William Hamilton em 1964, compreendendo-se o comportamento das abelhas operárias que renunciam a reproduzir-se ou do indivíduo que se arrisca por seu grupo.

Nos dias atuais, descreve a disposição de procurar o bem alheio sem esperar retribuição, distinguindo-se da mera generosidade pontual por constituir uma orientação de conduta, e diferenciando-se da caridade (dada no latim carĭtas, caritātis) na medida em que esta carrega a marca religiosa do amor ao próximo, enquanto o altruísmo nasce laico, filho do século XIX e de sua pretensão de fundar a moral na ciência.

A raiz *al- desdobra uma família numerosa: alter ego (conservando a grafia latina, por ‘outro eu’), alterar (dado no latim alterāre, expondo a ação de ‘tornar outro’), alternar (pautado no latim alternāre, vertebrando a ideia de revezamento entre dois), alteridade (sobre o latim medieval alterĭtas, conceito caro à filosofia contemporânea para pensar a relação com o outro), adúltero (visível no latim adulter, compreendendo aquele que se dirige a outro fora do vínculo) e alienar (observado no latim alienāre, a partir de alienus, por ‘alheio’, assinalando o que pertence a outro ou o que se torna estranho a si mesmo); pelo caminho grego da mesma raiz, identifica-se állos (ἄλλος), por ‘outro’, presente em alegoria (dado no grego allēgoría, conjugando agoreúein, por ‘falar em público’, expondo o dizer uma coisa para significar outra) e alopatia (sobre o grego állos e páthos, por ‘sofrimento’, denominando a medicina que combate a doença pelo contrário). Completa o quadro o próprio sufixo -ismo, incansável fabricante de doutrinas, apreciando-se em positivismo, egoísmo ou humanismo, sabendo que, entre todos eles, o altruísmo carrega a particularidade de ter nascido com pai, data e propósito declarados.

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