Crisma

Documentado no latim como chrisma, chrismătis, procedendo do grego khrîsma (χρῖσμα), que assinalava o azeite ou unguento consagrado utilizado em rituais de unção, derivado do verbo khríein (χρίειν), interpretando-se por ‘untar’, ‘esfregar’ ou ‘ungir’, com raiz no indo-europeu *ghrēi-, ao qual se atribuem os sentidos de esfregar ou lambuzar; acompanha o sufixo -ma (-μα), em função do resultado de uma ação, configurando a ideia daquilo que se obtém ao ungir, isto é, a própria substância com a qual se realiza o ato.

A prática de ungir com azeites aromáticos remonta às civilizações do Oriente Próximo, onde a aplicação de bálsamos sobre o corpo revestia um caráter tanto higiênico quanto cerimonial. No antigo Israel, a unção constituía o rito pelo qual se consagravam reis, sacerdotes e profetas, impregnando o ungido com uma autoridade que transcendia o humano e o investia como instrumento do divino. É precisamente deste verbo grego khríein que se desprende Khristós (Χριστός), o ‘ungido’, título que se aplica a Jesus de Nazaré e que o latim adota como Christus, forjando uma das derivações mais transcendentais da história linguística ocidental: a mesma raiz que nomeia um azeite ritual termina denominando uma figura cuja influência redefine calendários, impérios e civilizações.

Na liturgia cristã, o crisma se constitui como uma mistura de azeite de oliva e bálsamo que o bispo consagra durante a Missa Crismal da Quinta-feira Santa, reservando-se para os sacramentos do batismo, da confirmação e da ordenação sacerdotal, assim como para a dedicação de altares e igrejas. A tradição católica distingue três óleos sagrados: o sanctum chrisma, que ostenta a maior hierarquia, o oleum catechumenorum, destinado aos catecúmenos, e o oleum infirmorum, aplicado na unção dos enfermos.

O Brasil protagoniza um deslocamento semântico próprio e revelador: enquanto na tradição peninsular o crisma designa primordialmente a substância, o português brasileiro converteu a palavra no nome popular do próprio sacramento da confirmação, consagrando as expressões fazer a crisma e crismar-se como etapas do itinerário católico que estruturou por séculos a vida social do país, ao lado do batismo e da primeira comunhão. No Brasil colonial e imperial, onde o catolicismo operava como religião oficial e os registros paroquiais faziam as vezes de cartório, a crisma cumpria inclusive uma função civil de reafirmação identitária, e dela deriva uma instituição afetiva tipicamente ibero-americana: o padrinho e a madrinha de crisma, que ampliavam a rede de compadrio, esse parentesco espiritual que no interior do país tecia alianças políticas e sociais tão sólidas quanto as de sangue. Curiosamente, o gênero da palavra flutuou na fala brasileira, registrando-se tanto o crisma, para o óleo, quanto a crisma, para o sacramento, distinção que os dicionários nacionais acabaram por abonar.

Por extensão coloquial, documentada no espanhol peninsular, o crisma se desloca de seu registro litúrgico para designar a cabeça, particularmente na expressão romperse la crisma, que assinala um golpe violento no crânio, um deslocamento semântico que se compreende ao considerar que a unção batismal se realiza precisamente sobre o alto da cabeça do recém-nascido, estabelecendo uma associação metonímica entre a substância sagrada e a parte do corpo que a recebe.

O francês registra a forma chrême, que evolui para crème em uma bifurcação semântica notável que termina designando o creme em sua acepção cosmética e culinária, embora a via litúrgica se preserve em chrême como tecnicismo eclesiástico. O inglês adota chrism por via do anglo-saxão crisma, enquanto o italiano conserva crisma e o espanhol mantém a mesma forma.

Na esfera das associações linguísticas: Cristo (sobre o grego Khristós, por ‘o ungido’, calco semântico do hebraico māšîaḥ, que configura Messias), crismar (derivação direta de chrisma, descrevendo a ação de administrar o sacramento), creme (pelo francês crème, que toma a noção de unguento desde uma vertente secular), e anticristão (conjugando o prefixo anti- e Christiānus, que por sua vez procede de Christus).

Pela via do sufixo -ma podem-se identificar construções paralelas em estigma (sobre o grego stígma, pela marca resultante de picar), dogma (dado no grego dógma, pelo que parece correto) e enigma (pautado pelo grego aínigma, por aquilo que se diz de forma obscura).

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