Visível no latim como aenigma, aenigmătis, procedendo do grego aínigma (αἴνιγμα), que assinalava um dito obscuro, uma expressão velada ou uma adivinha cuja compreensão exigia um esforço interpretativo, derivado do verbo ainíssesthai (αἰνίσσεσθαι), interpretando-se por ‘falar de forma encoberta’ ou ‘expressar-se mediante alusões’, associado a aînos (αἶνος), que em sua acepção mais antiga remetia a um relato, uma fábula ou uma sentença moral cujo significado verdadeiro permanecia cifrado sob a superfície da linguagem; acompanha o sufixo -ma (-μα), em função do resultado de uma ação.
Homero emprega o termo na Odisseia para designar os relatos que Odisseu constrói com astúcia, palavras que dizem uma coisa enquanto significam outra, configurando um registro comunicativo onde a verdade não se entrega, mas se conquista. Essa linhagem narrativa haveria de impregnar a voz aínigma com uma densidade que transcende o mero passatempo lógico, instalando-a no cruzamento entre a sabedoria, o engano e a revelação.
Na tradição grega, o enigma por excelência se encarna na adivinha que a Esfinge propõe aos viajantes que pretendem ingressar em Tebas: que criatura caminha em quatro patas pela manhã, em duas ao meio-dia e em três pela tarde. A resposta de Édipo, identificando o homem em suas etapas de infância, idade adulta e velhice, não somente lhe franqueia a passagem à cidade, mas desata a cadeia de acontecimentos trágicos que Sófocles imortalizou, demonstrando que decifrar um enigma não garante a salvação de quem o resolve, podendo antes precipitar sua ruína. É justamente dessa cena que o Brasil extraiu uma de suas fórmulas mais repetidas: a intimação decifra-me ou devoro-te, atribuída à Esfinge pela tradição escolar e consagrada pela retórica bacharelesca do século XIX, converteu-se em patrimônio da fala culta nacional, citada em tribunas, vestibulares e crônicas, ao ponto de muitos a suporem de origem brasileira. No terreno popular, o enigma se aclimatou na tradição oral do o que é, o que é?, as adivinhas sertanejas e caipiras que Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) recolheu em sua Literatura Oral no Brasil (1952), herdeiras diretas do aînos grego em sua função de ensinar brincando, enquanto o registro letrado ganhava as bancas com as charadas e os enigmas figurados das revistas de passatempos, uma indústria que o país consolidou a partir dos anos 1970.
No âmbito bíblico, São Paulo emprega a forma latina aenigma em sua primeira epístola aos Coríntios, dentro da célebre sentença videmus nunc per speculum in aenigmate, transmitindo que vemos agora como através de um espelho, de maneira confusa, contrapondo o conhecimento parcial do presente com a claridade plena que aguarda no divino. A Vulgata de São Jerônimo consolida essa forma, dotando o termo de uma dimensão teológica que convive com sua herança mitológica.
O francês registra a forma énigme por volta do século XIV, ingressando ao inglês como enigma por via do latim, enquanto o italiano conserva enigma e o espanhol adota a mesma forma, mantendo em todos os casos a fidelidade ao étimo greco-latino, observando-se a perda generalizada do ditongo inicial ae- que o latim havia preservado do grego. No século XX, a palavra ganharia um capítulo tecnológico ao batizar a máquina Enigma, o dispositivo de criptografia alemão da Segunda Guerra Mundial, cuja decifração pelos aliados confirmou, em escala histórica, a velha lição tebana de que todo enigma carrega consigo o destino de quem o resolve.
Pela via do sufixo -ma, identificam-se construções paralelas em estigma (sobre o grego stígma, pela marca resultante de picar), dogma (dado no grego dógma, pelo que parece correto) e crisma (pautado no grego khrîsma, pelo resultado de ungir); no terreno semântico do dizer velado, apreciam-se como vizinhas conceituais a charada (procedente do francês charade, sobre o occitano charrado, por ‘conversa’), a adivinha (sobre o latim addivināre, conjugando ad- e divīnus, por aquilo que se alcança por inspiração divina) e a alegoria (dada no grego allēgoría, conjugando állos, por ‘outro’, e agoreúein, por ‘falar em público’, expondo o dizer uma coisa para significar outra).