Desejo

Documentado no latim vulgar como *desidiāre, do qual se desprende o verbo desejar, com base em uma alteração do latim clássico desiderāre, que se interpreta por ‘sentir falta’, ‘ansiar’, ‘aspirar àquilo que não se tem’, cuja composição interna tem sido objeto de debate. A hipótese mais sugestiva decompõe o termo no prefixo de-, indicando afastamento, separação ou carência, com raiz no indo-europeu *de-, mantendo o sentido de procedência ou privação, e sīdus, sīderis, assinalando uma estrela ou constelação, com possível raiz no indo-europeu *sweid-, ao qual se atribuem os sentidos de brilhar ou resplandecer, configurando a imagem de quem deixou de contemplar as estrelas, isto é, do soldado ou do áugure que, privado do guia celeste, experimenta a ausência como um anseio que o impulsiona a buscar aquilo que lhe falta.

Os generais consultavam a posição dos astros antes de empreender uma campanha, e a impossibilidade de ler o céu por causa das nuvens ou da distância gerava um estado de incerteza e expectativa que o latim haveria capturado como desiderāre, o ato de estar separado das estrelas e, por extensão, daquilo que se anseia. No entanto, essa etimologia, embora poética e amplamente citada, não goza de consenso pleno entre os especialistas, que assinalam dificuldades fonéticas na derivação e propõem alternativamente um vínculo com *desidēre, por ‘permanecer sentado’ ou ‘ficar inativo’, composto por de- e sedēre, por ‘sentar-se’, com raiz no indo-europeu *sed-, compreendendo a ideia de quem permanece à espera de algo que não chega, uma passividade carregada de expectativa que se desloca semanticamente ao anseio.

A evolução do latim clássico desiderāre ao latim vulgar *desidiāre responde a um processo de simplificação habitual na fala popular, onde as formas cultas se contraem e se adaptam à fonética corrente, gerando o português desejar, o espanhol desear, o francês désirer (que conserva maior proximidade com a forma clássica) e o italiano desiderare (que a preserva intacta). O inglês desire ingressa por via do francês antigo desirer por volta do século XIII, mantendo a marca do latim através do filtro normando.

O substantivo desejo se configura como derivação deverbal do verbo desejar, e designa tanto o impulso interior que move o indivíduo à obtenção de algo que percebe como ausente ou necessário, quanto o próprio objeto dessa aspiração. Na tradição filosófica, o desejo ocupa um lugar central desde os diálogos platônicos, onde Sócrates o explora no Banquete através do mito de Eros, filho de Poros (a Abundância) e Penia (a Pobreza), cuja natureza híbrida o condena a buscar perpetuamente aquilo que lhe falta. Na teologia cristã, bifurca-se entre a concupiscentia, o apetite desordenado que inclina ao material e ao carnal, e o desiderium espiritual, o anseio legítimo da alma por reunir-se com o divino, uma dualidade que Santo Agostinho explora nas Confissões.

No Brasil, a palavra encontrou sua consagração literária justamente nessa tensão agostiniana: o desejo vertebra a obra de Machado de Assis (1839-1908), do olhar oblíquo de Capitu em Dom Casmurro (1899) à cobiça difusa que move Brás Cubas, e alcançaria sua expressão mais visceral em Nelson Rodrigues (1912-1980), cujo teatro converteu o desejo reprimido da família brasileira em matéria trágica, apreciando-se o marco de Vestido de Noiva (1943). O idioma cotidiano, por sua parte, conserva um rito que devolve a palavra a seu étimo celeste: o costume de fazer um pedido ao avistar uma estrela cadente, expondo que a fala popular jamais rompeu o vínculo entre desejar e olhar o céu.

Sobre as raízes, expõe-se pela via de desiderāre, desiderato e desiderátum (conservando o particípio latino em sua forma neutra para designar aquilo que se considera necessário ou aspiracional), desiderata (como plural neutro latino empregado para enumerar as coisas desejadas) e considerar (dado no latim considerāre, formado por cum-, por ‘junto com’, e sīdus, transmitindo a ideia de examinar conjuntamente as estrelas, e por extensão, refletir com detimento sobre um assunto). Pela via de sīdus, identificam-se sideral (sobre o latim sīderālis), sidéreo (dado no latim sīdereus) e a própria noção de desastre (observável no italiano disastro, conjugando o prefixo dis-, por separação, e astro, sobre o grego astron, por ‘estrela’, configurando a ideia de um acontecimento ocorrido sob uma má estrela, expondo um parentesco semântico com desejo pela via da privação estelar). Pelo caminho alternativo de sedēre, apreciam-se sedentário (pautado pelo latim sedentarius), residir (sobre o latim residēre, por permanecer sentado em um lugar) e presidente (conjugando prae-, por ‘diante’, e sedēre, assinalando quem se senta à frente).

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