Monumento

Apreciado no latim como monumentum, variante de monimentum, procedendo do verbo monēre, que se interpreta por ‘advertir’, ‘recordar’ ou ‘fazer pensar’, com raiz no indo-europeu *men-, ao qual se atribuem os sentidos de pensar, refletir e evocar mediante a atividade mental; acompanha o sufixo -mentum, em função instrumental e resultativa, assinalando o meio ou produto de uma ação, configurando a ideia daquilo que serve para fazer recordar, isto é, o objeto, a estrutura ou a inscrição cuja razão de existir é preservar a memória de algo ou alguém.

O monumentum não se limitava à edificação grandiosa ou à escultura comemorativa que hoje se associa ao termo, mas englobava qualquer elemento capaz de ativar a memória, incluindo sepulcros, inscrições funerárias, textos escritos e inclusive testemunhos orais. Cícero emprega a voz para referir-se tanto às tumbas que pontuam a Via Ápia quanto aos registros documentais que preservam os feitos do estado, expondo uma amplitude que a evolução semântica haveria de restringir progressivamente.

Na Roma imperial, a monumentalidade se ergue como instrumento político de primeira ordem: o Coliseu, os arcos de triunfo, as colunas comemorativas de Trajano e Marco Aurélio não somente celebram vitórias militares, mas inscrevem em pedra a narrativa do poder, projetando ao futuro a versão dos fatos que o estado deseja perpetuar. Desse modo, o monumento transcende sua função evocadora para converter-se em um dispositivo de controle sobre a memória coletiva, determinando o que se recorda e o que se esquece.

O deslocamento semântico para a acepção contemporânea, concentrada na estrutura arquitetônica ou escultórica de valor histórico e artístico, consolida-se por volta do século XVI, acompanhando o redescobrimento humanista das ruínas clássicas e a emergência de uma sensibilidade que percebe nos vestígios materiais do passado um patrimônio digno de proteção. A noção moderna de monumento histórico se formaliza no século XIX com as primeiras legislações de preservação patrimonial na França e posteriormente na Espanha. O Brasil escreveria seu capítulo em 1937, com a criação do SPHAN, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual IPHAN, idealizado por Mário de Andrade (1893-1945) e conduzido por Rodrigo Melo Franco de Andrade, instituindo o tombamento como instrumento jurídico de proteção e elegendo Ouro Preto, declarada monumento nacional em 1933, como pedra fundacional dessa memória oficial. A lógica romana do monumento como narrativa do poder encontraria sua expressão máxima em Brasília, onde os marcos de Niemeyer inscreveram em concreto a versão modernista da nação, enquanto o Cristo Redentor, inaugurado em 1931 no alto do Corcovado, converteu-se no monumento brasileiro por excelência, ao ponto de operar como sinédoque visual do próprio país. Na contramão, o idioma popular registrou o desgaste do gesto comemorativo na expressão virar estátua de praça, e o debate contemporâneo sobre a derrubada ou recontextualização de monumentos, como o do bandeirante Borba Gato em São Paulo, incendiado em 2021, devolveu à palavra sua tensão original: decidir o que se recorda é, sempre, decidir o que se esquece.

O francês registra a forma monument por volta do século XII, ingressando no inglês como monument por via do francês antigo, enquanto o italiano conserva monumento e o espanhol adota a mesma forma, mantendo em todos os casos a estrutura do étimo latino.

Entre as associações da língua pode-se listar, pela via de monēre, monitor (dado no latim monĭtor, monĭtōris, assinalando quem adverte ou supervisiona), monição (observado no latim monitĭo, monitĭōnis, pela advertência formal), premonição (pautado pelo latim tardio praemonitĭo, conjugando prae-, por ‘antes’, e monēre, compreendendo o aviso que precede o acontecimento) e admoestar (visível no latim admonestāre, variante vulgar de admonēre, por advertir em direção a alguém).

Pela raiz indo-europeia *men-, identificam-se mente (sobre o latim mens, mentis, pela faculdade de pensar), memória (no latim memorĭa, procedendo de memor, por quem recorda), demência (dada no latim dementia, conjugando de- e mens, pela ausência de razão) e comentário (declarado no latim commentarĭum, sobre comminīsci, por idear ou refletir conjuntamente).

Pela via do sufixo -mentum, apreciam-se construções paralelas em instrumento (sobre o latim instrūmentum, por aquilo que serve para construir), argumento (pautado pelo latim argūmentum, pelo que serve para demonstrar) e fundamento (dado no latim fundāmentum, por aquilo sobre o qual se assenta).

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